Caridade
Caridade
Isaque Moreira Miranda
Chegaram aqui
Um povo de uma caridade “aí”.
Me deram de comer e beber
E se assentaram aqui,
comigo,
no chão mesmo sem frescura.
Um povo de uma caridade “aí”.
Me deram de comer e beber
E se assentaram aqui,
comigo,
no chão mesmo sem frescura.
Me olharam nos olhos
como se a gente fosse igual
E me falaram umas palavras bonitas “aí”,
que o meu vicio tinha cura.
Coisa e tal.
Que eu não precisava viver essa vida marginal.
Que eu não precisava viver essa vida marginal.
Falaram dos meus direitos
Coisa de quem entende de letra
Direito à dignidade, à igualdade...
coisa de rei.
Levantaram-se e foram embora.
Tirei o meu “goró” da minha sacola
e fiquei comigo aqui pensando,
mas pensar cansa e minha cabeça tá martelando.
Dei mais alguns goles,
virei pro canto e dormi
Aqui mesmo, no chão sujo da rua.
Já se passaram três dias desde a caridade
e nada da igualdade e da dignidade
aparecerem e se assentarem aqui,
comigo,
me olharem nos olhos, com igualdade.
“Trocarem” um papo e me tirarem daqui.
Talvez seja mesmo coisa de rei
ou talvez, só talvez fui eu mesmo quem errei.
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