O Juiz e o Carrasco
O juiz e o carrasco
Envolto pelas trevas noturnas,
pelo seu edredom e pelo quente corpo de sua esposa,
não encontrava paz o magistrado.
Cuja mente inquieta
percorria os segredos de seus pensamentos.
Em seu quarto, mobiliado de madeira antiga,
competia o som do relógio contra o domínio do silêncio.
A luz branca do luar penetrava as janelas e desenhava
sombrosas figuras que
destorciam os objetos.
Uma inumana voz, vinda das tortuosas sombras,
ganhava volume rompendo o silêncio da noite
em sombria exclamação:
- Assassino! Assassino!
Murmurava em coro.
-Assassino! Assassino!
Insistia a sinistra e pungente voz que só ele parecia
escutar.
Desconcertado e incrédulo,
opta ele por tomar um gole da bebida
que repousava na pequena mesa
localizada ao lado de sua cama.
Já mais calmo,
adormeceu e pôs-se a sonhar.
Um sonho lúcido, palpável e familiar.
Era uma tarde de quarta-feira, estava no tribunal,
em mais um dia de trabalho
Assentado podia ver a miúda figura de uma senhora.
Lourdes era o seu nome e que,
ao lado de seu advogado,
ansiava esperançosa por uma sentença favorável
ao seu pedido ao Estado:
medicamentos de alto custo,
para que pudesse viver por mais alguns anos.
-Assassino! - A voz invade os seus sonhos.
Com os olhos em lagrimas e trémulo acorda o magistrado.
Ofegante decide fitar as suas mãos, que,
para a sua surpresa encontravam-se limpas,
sem qualquer vestígio de sangue.
Desolado, tenta se conformar e aceitar,
Pois, no fundo, já sabia ele
que essa não seria a última vez.
(Poema Publicado na Revista VirtuaJus, Belo Horizonte, v. 5, n.9, p. 374-406, 2º sem. 2020 - ISSN 1678-3425)
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