O Juiz e o Carrasco

 

O juiz e o carrasco


 Isaque Moreira Miranda


Envolto pelas trevas noturnas,

pelo seu edredom e pelo quente corpo de sua esposa,

não encontrava paz o magistrado.

Cuja mente inquieta

percorria os segredos de seus pensamentos.

Em seu quarto, mobiliado de madeira antiga,

competia o som do relógio contra o domínio do silêncio.

A luz branca do luar penetrava as janelas e desenhava

sombrosas figuras  que destorciam os objetos.

Uma inumana voz, vinda das tortuosas sombras,

ganhava volume rompendo o silêncio da noite

em sombria exclamação:

- Assassino! Assassino!

Murmurava em coro.

-Assassino! Assassino!

Insistia a sinistra e pungente voz que só ele parecia escutar.

Desconcertado e incrédulo,

opta ele por tomar um gole da bebida

que repousava na pequena mesa

localizada ao lado de sua cama.

Já mais calmo,

adormeceu e pôs-se a sonhar.

Um sonho lúcido, palpável e familiar.

Era uma tarde de quarta-feira, estava no tribunal,

em mais um dia de trabalho

Assentado podia ver a miúda figura de uma senhora.

Lourdes era o seu nome e que,

ao lado de seu advogado,

ansiava esperançosa por uma sentença favorável

ao seu pedido ao  Estado:

medicamentos de alto custo,

para que pudesse viver por mais alguns anos.

-Assassino! - A voz invade os seus sonhos.

Com os olhos em lagrimas e trémulo acorda o magistrado.

Ofegante decide fitar as suas mãos, que,

para a sua surpresa encontravam-se limpas,

sem qualquer vestígio de sangue.

Desolado, tenta se conformar e aceitar,

Pois, no fundo, já sabia ele

que essa não seria a última vez.


(Poema Publicado na Revista VirtuaJus, Belo Horizonte, v. 5, n.9, p. 374-406, 2º sem. 2020 - ISSN 1678-3425)

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